Euroville


Rachel Rosalen e Rafael Marchetti

A obra foi realizada a partir da gravação, sob a direção dos artistas, de uma seleção de alguns artigos específicos da Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia, na sede do Parlamento Europeu em Bruxelas. O registro do audio foi gravado em 6 línguas e mixado com imagens, capturadas por um sistema de busca na internet atualizado, de certos aspectos da realidade européia que se contrapõe ao texto da Carta.

A obra foi construída a partir do material produzido pelos artistas Rachel Rosalen e Rafael Marchetti em uma residência artística realizada em Bruxelas, 2010. Nesta residência, o foco do projeto foi o binômio entre local e União Européia. A presença da EU e as instituições relacionadas a esta esfera de poder recortam, na cidade de Bruxelas – Bruxelles-Ville ou Ville de Bruxelles, uma nova cidade baseada nos conceitos internacionais da arquitetura pós-moderna. Em um território construído por edifícios seculares mesclados com arquitetura art-nouveau, esta nova metrópoles surge recortada verticalmente no coração da cidade. Como território, a cidade vive uma situação urbana muito singular. Desde sua fundação em 580, passando pelo neto de Carlos Magno e Charles V de Habsburg (Império Espanhol), Flanders tornou-se a base do EEC (European Economic Community), que se tornou EU, Europe Union, em 2003. Hoje a cidade é sede de mais de 120 instituições governamentais internacionais, 1400 organizações não governamentais, 159 embaixadas e 2500 diplomatas. O papel decisivo de Bruxelas na Europa tem aumentado ao longo do tempo. Para muitas pessoas, Bruxelas foi substituída pelo conceito de “Instituições Européias” na linguagem quotidiana. Dado que mais de 30% da sua população é estrangeira, Bruxelas perpetua uma longa tradição de uma cidade cosmopolita com uma grande complexidade social e urbana. Bruxelas está cindida desde sua base administrativa entre Flanders e a comunidade Francesa, com 2 línguas correntes, ao qual se mescla esta grande imigração da Europa do Leste, América do Sul e África, principalmente do Congo, herança de uma colonização violenta. Seus filhos retornam a Europa buscando trabalho.

Mais uma vez o contraste entre o local e o global, entre a Villa e a Metrópoles, o Belga e o imigrante, aparece como conflito. Ironicamente a mesma EU que formula a “Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia” e a publica nas línguas referentes aos países que fazem parte da Comunidade, exila, com este gesto, tudo aquilo que não pertence a este grupo, ou seja, todos os imigrantes. Esta cisão entre o “dentro”, o que pertence, e o de “fora”, o estrangeiro, o que não pertence e não participa das relações endogâmicas do grupo local. Com dinâmicas baseadas em relações endogâmicas, o estrangeiro é sempre uma ameaça ao “bem-estar, equilíbrio, economia e valores locais” pois rompe com um certo funcionamento cultural-estruturante e com as lógicas de organização social do grupo.

Em uma metrópole, este comportamento atávico e endogâmico existe, mas fica diluído pela escala, pelas conexões, pelos acessos ao fora são parte fundante das grandes metrópoles contemporâneas. A EU, como organização que reúne grande parte países europeus, ao mesmo tempo que reproduz e centraliza algumas dinâmicas das grandes metrópoles em termos de economia, produção e conexões, em outros aspectos reproduz situações de uma pequena Villa, criando legislações cada vez mais pesadas com relação a imigração (mas sem deixar de aproveitar-se desta mesma imigração como fonte de mão de obra barata, muitas vezes, mantida na ilegalidade).

A obra contrapõe o texto da “ Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia” com imagens da cidade de capital da Bélgica, a Bruxelles-Ville, catalisadora da União Européia e de uma cisão interna, e de uma Europa divida em crise, buscadas em tempo real na internet e mescladas com o texto da carta.

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2010_UFSC, 20 Mil Léguas, Santa Catarina, Brasil

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20 Mil Leguas: curadoria Clelia Mello