black rain # an anti-war project

atores
texto curatorial: Agnaldo Farias

Desde 2003 Rachel Rosalen faz viagens periódicas ao Japão. Viagens em busca de um outro longínquo, geografia e história antípodas, que levam mais de 24 horas de vôo, o corpo entorpecido pela imobilidade imposta pelo espaço cilíndrico do avião, túnel voador ao fim do qual desemboca-se num arquipélago, aos olhos da artista, aos olhos de qualquer um de nós, de enigmas.
Como já era de se esperar, também nesses trabalhos realizados no Japão, Rachel Rosalen mira o corpo, freqüentemente o próprio corpo, pensando-o à luz e à contraluz da arquitetura, das fluidas noções de espaço e tempo, dos signos mais ou menos materiais que nele se emaranham.

“Black Rain # anti-war Project” submerge-nos no horror da guerra, a queima-roupa com o trágico, com a cegueira e o emudecimento, seus efeitos mais imediatos. Entrando nesse túnel de espelhos, em que imagens projetadas de corpos deliqüescem às imagens refletidas de nossos próprios corpos, em que repassamos os corpos das muitas cidades que durante as últimas décadas foram tombando em cacos, estacamos diante da evidência de ser impossível prosseguir insistindo no conceito de beleza depois do cogumelo de Hiroshima, das gotas de chumbo que se abateram sobre seus habitantes para grudar em suas peles, derretendo-os e envenenando-os.
Com mais esse trabalho a artista aprofunda-se em seu propósito de pensar a construção do corpo no Japão do pós-guerra. Mas não só. Porque são tristemente inumeráveis as comunidades que hoje crescem à sombra da violência. Visitando-o, o público, através de imagens e sons distorcidos, experimentará em seu próprio corpo a força persuasiva desse libelo contra a crueldade e a estupidez.