instituto tomie ohtake expõe obra sobre hiroshima

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texto crítico: Priscila Arantes

O filósofo Georges Bataille diz que uma das principais características da guerra é o seu elemento de crueldade; o assassínio sem qualquer tipo de escrúpulo de homens, mulheres e crianças, mães com seus bebês no colo e outros filhos mal na idade de caminhar. A guerra, explica Bataille, “desenvolveu uma crueldade de que os animais são incapazes”. Já para Michael Foucault a guerra é uma das formas mais evidentes dos mecanismos de poder da sociedade capitalista.

Há 60 anos, no dia 8 de agosto de 1945, um piloto americano pintou na fuselagem de seu avião o nome “Enola Gay”. Depois, voando sobre o Japão, despejou, por volta das 8:15 da manhã, a bomba atômica que derreteu cerca de 100 mil pessoas em Hiroshima. Em menos de 30 segundos mais de 70.000 prédios foram destruídos deixando a cidade em chamas e provocando uma total destruição de mais de 13km2. Os prejuízos foram enormes, milhões de mortos e feridos, corpos derretidos e cidades totalmente arrasadas.

É sobre esta crueldade e sobre a estupidez da guerra que a mostra black rain # anti-war project da artista multimídia Rachel Rosalen nos convida a refletir. O projeto, foi apresentado pela primeira vez no Instituto Tomie Ohtake com o apoio da Fundação Japão.

“black Rain # an anti-war project” nos faz mergulhar no horror e na tragicidade da guerra. A idéia do projeto foi a de “ trabalhar com uma certa fantasmagoria da guerra, sem, contudo fazer uma ilustração. Por mais que minhas referências possam estar no corpo do pós-guerra japonês, os corpos que vêm à cena inquirir sobre sua morte não têm a construção do corpo do butoh. Fui ao encontro da guerra, mas o que retorna destes corpos é o amor, uma fraternidade que se junta na consciência do desastre. Assim, juntos, surgidos das cinzas, eles não se arrastam: mas nos fazem deparar com uma melancolia, com sujeitos que, como em muitas peças de Noh, estão em um entre-estado. Já morreram, mas não conseguem deixar a condição de ser-vivo (muitas vezes, nestas peças, o que os retêm é o amor). Aqui, eles vêm deste além para nos lembrar, para nos acordar desta dormência, desta mudez que a violência provoca quando ultrapassa quaisquer limite e é pura crueldade”, explica Rosalen.

Neste trabalho a artista convida o público a percorrer uma sala escura com 4 projeções em um corredor de espelhos no formato de uma luneta. As imagens de arquivo sobre a explosão de Hiroshima são entremeadas por imagens gravadas pela artista com 7 atores brasileiros: Leona Cavalli, Pascoal da Conceição, Ondina Castilho, Toshi Tanaka, Ciça Ohno, Ádega Olmos e Emilie Sugai. Com uma luz que nos lembra as obras do artista barroco Caravaggio e de uma melancolia estonteante, o trabalho é acompanhado pela trilha sonora do violoncelista Dimos Goudaroulis e filtrada por uma programação em MAX-MSP de Ignácio de Campos. “Desde o início do projeto eu sentia que precisava do som grave do cello. Convidei Dimos para tocar ao vivo no que eu estou chamando de happenings intermedias. Assim, ele criou paisagens sonoras do lado de fora da instalação, que serão transmitidas e alteradas por um software antes de serem amplificadas no espaço, sofrendo distorções, recriando as tensões, os ruídos e o imaginário da guerra.” diz Rosalen.

“black Rain # an anti-war project” é um dentre outros projetos que a artista Rachel Rosalen explora questões que dizem respeito à cultura japonesa. Em finais do ano de 2003 Rosalen recebeu, da Fundação Japão, uma bolsa de residência em Tokyo. Desde então a artista vem desenvolvendo uma série de trabalhos que refletem sobre a construção do corpo no Japão tais como Diários Japoneses (Nihon Nikki), Tokyo In, Otaku, Red Dreams e zerozones. Nestes trabalhos a artista, através de imagens videográficas, formas ondulantes e fluídas, superposições, cortes rápidos e secos mesclados por recursos sonoros e textuais, fala muitas vezes do corpo estrangeiro que, exilado do mundo e de si mesmo nos conduz ao canto de uma aventura exótica que mistura a cultura ocidental à oriental.

Em “black rain # an anti-war project” encontra-se a possibilidade de vivenciar as questões que dizem respeito às atrocidades da guerra. Entre o corpo derretido e a cidade em chamas, entre o silêncio e o vermelho do kimono do atores, entre os corpos destroçados e os olhares aterrorizados das crianças, somos convidados a refletir sobre os conceitos que ainda nos restam de humanidade.

Priscila Arantes é curadora, crítica e pesquisadora no campo da arte e tecnologia. É professora da PUC/SP e Senac/SP. Curadora do Paço das Artes e MIS.

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