ensaio sobre a crueldade ou o encontro do sr. fatzer com a rainha de copas

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texto: Arlindo Machado

“Cortem a cabeça dela” – vocifera a Rainha de Copas. Pode haver perversidade maior que colocar um exército de decapitados num livro destinado a crianças? Como Lewis Carroll, Rachel Rosalen faz desfilarem nas telas simultâneas de um evento noturno as imagens do horror cotidiano, extraídas, parte delas, das páginas ensangüentadas dos jornais diários. Num ambiente em que mais se espera diversão ou evasão e em que as living images que acompanham as músicas costumam se reduzir a um grafismo asséptico de gosto decorativo, Rosalen traz o ruído cruel do exterior, o estampido das balas perdidas ou bem destinadas e as imagens já banalizadas das vítimas anônimas, como que nos convidando a pensar, da mesma forma que Brecht, sobre a nossa relação com toda a violência do mundo. Por que fomos até agora poupados? Por que não viramos ainda presuntos, como os outros? Até quando nossas grades, nossos alarmes, nossos dispositivos de vigilância e nossos sistemas políticos nos defenderão de uma crueldade que pode também estar dentro de nós?

Na primeira versão de Ensaio sobre a Crueldade, concebida para ambiente eletrônico, com leitura simultânea de textos de Brecht e Carroll, Rosalen concebeu um vigoroso ensaio audiovisual sobre a generalização da violência. A violência como um vírus, uma praga, uma maldição ou talvez até um traço genético, que se mistura com nossos afetos e prazeres, a ponto de não sabermos mais se queremos realmente nos livrar dela. Ensaio sobre a Crueldade é uma tentativa de construir um diálogo audiovisual para discutir uma questão nada irrisória: que animal é esse, o homem?

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