the garden of love [ 白昼夢 ]

the garden of love é uma vídeo instalação interativa feita a partir de imagens gravadas em um cemitério zen-budista em Tokyo. A artista realiza uma performance para a câmera criando intervenções no espaço público do cemitério e colocando em questão o sentido da vida. As gravações da performance e edição são utilizadas na construção de dois bancos de dados acionáveis por sensores infra-vermelhos que respondem ao fluxo do público no espaço. A partir destes bancos de dados são feitas duas projeções diferentes em paredes contíguas. Na borda externa de cada projeção uma faixa de espelho cria um espaço paralelo localizado atrás das imagens projetadas, um cubo branco vazio, silencioso e suspenso onde o espectador se vê.

O espaço da instalação é de 6 X 6 X 3 metros, teto de malha branca elástica e piso coberto por uma camada de 2 cm de sal, formando um espaço completamente branco. O sal foi escolhido por suas propriedades químicas: higroscopia, conservação, desertificação das áreas que têm alta concentração de sal na terra e condução de energia. Sua propriedade higroscópica diminui a taxa de umidade no ar, gera um ambiente de diferente temperatura, altera a sinestesia e portanto a percepção do trabalho como um todo.

Este quase cubo branco reflete a luz das imagens transformando o espaço em uma caixa de luz, que vaza pelos corredores de entrada do espaço.
Os interatores estabelecem o tempo do projeto e alteram o horizonte de eventos contido no trabalho.

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2007_Prêmio do Instituto Sergio Motta de Arte e Tecnologia
http://www.premiosergiomotta.org.br/

2006_Videoforms: Manifestation Internationale d’Art Vidéo et Nouveaux Médias, Clermond-Ferrant, France
http://www.nat.fr/videoformes/FESTIVAL/2006/EXPOS/EXPOS_TOLERIE_06.html

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2005 – 2006, Tokyo, Japão/ Clermont-Ferrand, França

36 m2 – 2 vídeo projetores – 4 caixas amplificadas – sal – interface
ceramista: KYOKO TOKUMARU
produção das cerâmicas em Tokyo: ROSALEN EXHIBITION COMMITTEE/ YOKOHAMA MUSEUM OF ART (YOKOHAMA ARTS FOUNDATION), com coordenação de HIROKO SEKI e MICHIKO OGURA por ocasião da mostra solo TRANSLOCAL URBANITIES > love politics, YOKOHAMA ART MUSEUM, 2005.
co-produção: VIDEOFORMES: MANIFESTATION INTERNATIONALE D’ART VIDÉO ET NOUVEAUX MÉDIAS, CLERMOND-FERRANT, FRANÇA
agradecimentos: FUMIO NANJO, NAOYA HATAKEYAMA, HIROKO SEKI


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Os deslocamentos colocam-me em uma posição que tem algo muito similar com a situação do exílio. Não qualquer exílio, mas a de um exílio decidido e experienciado como processo de pesquisa e construção de obra. O exilio se define pelas suas bordas e limites: é uma possibilidade da política, mas se difere do êxodo e da diáspora. Seu rotor é diferente porque sua memória é diferente e é esta sua memória a motivação para sua volta. Não retornam a casa do mesmo modo o exilado e o imigrado. Não elaboram (exilado e imigrado) do mesmo modo a nostalgia nem a visão de mundo, nem seus retornos. O lugar do artista tem também algo do exílio mas também do insílio, ou o que define aquele que se sente estrangeiro dentro da própria pátria. O insílio se diferencia do exílio na sua voz: caracteriza-se pelo silêncio, um silêncio quase total.

O exílio é ainda uma experiência expansiva porque traz em si um liberar-se da memória, uma liberação mediada pela nostalgia (nostos em grego é estar longe da pátria). Nessa expansão o artista é a interface. Traz em si uma memória larga e intransmissível e isto é ao mesmo tempo sua força e sua delicadeza, sua morada e sua raiz errante. Trata-se então da preservação e apagamento da memória, desta experiência de estrangeiridade no corpo, um corpo em trânsito, de passagem, meio nômade, deslocado, na situação de alteridade radical: um corpo que habita o não pertencimento, que habita esta cidade estrangeira e que só assim pode nos revelar as imagens do insílio. O trabalho de um artista é uma construção ininterrupta onde cada obra faz um corte e coloca em suspensão a reflexão que é contínua.

The Garden of Love dá continuidade a esta série de projetos realizados em trânsito pelo Japão, entre exílios e insílios e considera o corpo como interface e o trânsito como parte fundante do trabalho.

A captura destas imagens envolveu mais de dez dias de imersão no cemitério, do amanhecer até a luz cair no final da tarde. Tal imersão é bastante visível nas imagens. São, como nos diria Bergson, imagens-tempo. Este banco de dados contém uma série de ações que se repetem, são interrompidas, quebradas, retornam, desaparecem, retornam novamente. Trata-se do ciclo da vida revelado em uma contagem: 2, 56, 27, 98, 1, 3, 59, 84, … e assim por diante. Os ovos ocupam o espaço meio público meio privado das lápides, nesta contagem sem início nem fim que se desdobra sobre si mesma. Peter Pál Pelbart comenta sobre as noções de tempo na obra de Deleuze: “Diríamos que o tempo, como matéria-prima aberta, é como uma massa a ser incessantemente moldada, ou modulada, estirada” (PELBART, 1998:21). E é esta massa e a ação sobre esta massa que The Garden of Love convoca.

O cemitério foi escolhido como um lugar para falar da transitoriedade da vida, de continuidade e ruptura. O homem deixa de ser nômade a partir do momento em que começa a se agrupar e sedimentar em torno dos locais onde são enterrados seus mortos. Não só – é o lugar de sepultamento e o culto dos mortos que estão na base, talvez a única base concreta, da idéia de pátria. As necrópolis estão, portanto, na raiz das cidades. Em Tokyo, como em qualquer cidade do mundo, estas necrópolis são locais de repouso, pausa, respiro. Criam um vazio potencial dentro de um silêncio suspenso entre o vir a ser e o passado. Este projeto está baseado no conceito japonês ma, que permeia todas as manisfestações artísticas da cultura japonesa e é uma suspensão no fluxo de espaço-tempo.