um olhar sobre o japão

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texto crítico: Arlindo Machado

Os trabalhos de Rachel Rosalen realizados no Japão entre 2003 e 2004 oferecem uma rara oportunidade para se pensar as tensões entre identidade e outridade: trata-se de uma visão do Japão sob a óptica de uma estrangeira, mas o objetivo é menos entender o país do que buscar respostas às próprias inquietações. Da mesma forma como a aventura de Roland Barthes no Japão (L’empire des signes, Flammarion, 1980), trata-se de buscar um certo número de traços culturais identificados com esse país do oriente, para com eles vislumbrar “a possibilidade de uma diferença, de uma mutação, de uma revolução na propriedade dos sistemas simbólicos.” Sem abrir mão dos temas e estilos que já marcavam seu trabalho anterior (o conflito entre corpo e arquitetura, ou entre desejo e loucura, o erotismo como política, a poesia como forma audiovisual), a artista encontra no Japão um repertório amplo de novas questões, que vão determinar desdobramentos inesperados no seu trabalho.

Em primeiro lugar, amplia-se a perspectiva zen dos vídeos de Rosalen. Roses, trabalho delicado inspirado em versos de Edmond Jabès, mostra a artista examinando longamente a forma arredondada de um chawan (tijela de cerâmica usada na cerimônia do chá), como se realizasse ali uma meditação sobre o vazio, enquanto o corpo vive um momento de suspensão e de entrega. O próprio título de Matsu (que significa “espera” em japonês) já sugere um estiramento do tempo, uma distância com relação ao que se busca, o objeto de desejo visto como algo fugaz, indefinível, impossível de fixar. Em Nihon Nikki (Diários Japoneses), a artista e seu antagonista permanecem sentados longamente sobre o tatami, à maneira japonesa, e essa imobilidade, esse silêncio, só são quebrados esporadicamente, quando um gesto violento, inesperado ou carinhoso transgridem a situação cerimonial. I am raining again mostra apenas paisagens que passam infinitamente sob a perspectiva de um viajante de trem, dispostas em três janelas laterais que lembram os três versos de um haikai, enquanto se ouve a música longínqua de um shakuhachi (flauta tradicional de bambu). Raasar mostra duas imagens quase idênticas, oferecidas como se fossem um par estereoscópico, mas uma está sempre um pouco mais recuada no espaço e no tempo do que a outra; nas duas janelas, vemos apenas paisagens vazias e distantes, árvores cujos galhos parecem representar no espaço os traços do desenho clássico japonês, a solidão, o vazio.
Paralelamente a esse mergulho no espírito zen, o estilo da artista fica muito mais refinado. Em vídeos como Matsu e Red Dreams, a poesia que brota das telas múltiplas e das imagens sobrepostas é bastante sofisticada. Pode-se mesmo dizer que, em sua fase japonesa, os trabalhos de Rosalen resultam muito mais delicados, com um senso de leveza, design, beleza visual e sensualidade raramente vistos no vídeo. Há neles uma sabedoria intuitiva para a disposição dos elementos no quadro, para o arranjo das manchas de imagem em contraposição às zonas vazias, para a composição harmoniosa das formas sobrepostas em escalas variáveis, e tudo isso parece fazer ecoar a beleza singela das gravuras japonesas, o traçado dos caracteres kanji e a arte do ikebana.
Mas no contrafluxo dessas paisagens zen, há também a violência, a desordem, a irrupção ruidosa do corpo e da sexualidade. Em Otaku (“obsessão louca” em escrita hiragana), uma certeira espada de samurai corta a cabeça de uma delicada boneca japonesa e depois ameaça a própria artista. Em Nihon Nikki, os dois antagonistas de sexos opostos contrapõem afeto e violência, indiferença e paixão. Em Red Dreams, o vermelho é interpretado como a cor do feminino. Ao som de taiko (tambores tradicionais japoneses) e instrumentos eletrônicos, a toalha vermelha amarrotada e irregular debaixo do corpo feminino sugere uma poça de sangue, enquanto a colher furada faz a metáfora do vazamento, do ciclo menstrual. Tokyo in (forma abreviada de Tóquio in My Mind) traz à tona o ruído da Tóquio moderna, com toda a exacerbação do erotismo, a ênfase nos corpos nus e nos signos aberrantes da sexualidade (como o enorme pênis pendurado no teto de um bar). As célebres gravuras eróticas japonesas estão presentes em vários vídeos (com mais evidência em Red Dreams e Tokyo In), como que contextualizando a contradição de um país que tanto policia o desejo sexual, mas tem o erotismo como uma das bases de sua cultura.

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