rachel rosalen

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o global e o local: o video e as imagens do insílio


Arlindo Machado

A partir de finais dos anos 1980, algo começa a mudar na paisagem eletrônica brasileira. Eder Santos começa a se preocupar com as imagens do exterior em vídeos como Não Vou à África porque Tenho Plantão, Essa Coisa Nervosa e Enredando a la Gente, enquanto Sandra Kogut, em Parabolic People, nos faz tomar consciência de um planeta que se tornou globalizado e de uma humanidade cujas relações se internacionalizaram. De repente, o Brasil não era mais um país isolado e seus problemas não se resolviam apenas em escala nacional.

A partir da generalização dos processos de mestiçagem e hibridismo, a partir também dos deslocamentos e migrações em escala mundial no final do século XX, o global e o local se entrecruzam, as fronteiras são perfuradas e, de repente, nos damos conta de que o Iraque (ou o Haiti) é aqui. A Internet é a expressão mais acabada dessa mutação: nela estamos em casa tanto com o vizinho da frente como com o estrangeiro distante. Muitos videoartistas brasileiros passam a morar no exterior, de forma definitiva ou temporária, ou passam a se interessar por outros povos, outras culturas, outras realidades. O vídeo brasileiro começa então a falar outras línguas, generalizam-se os títulos em inglês, voltamos a deglutir antropofagicamente tudo o que supúnhamos ser estrangeiro. Os rostos que povoam as nossas telas eletrônicas pertencem agora a todas as raças.

O próprio conceito de estrangeiro mudou. Antes, a estrangeirice era pensada em termos apenas territoriais, com base na oposição binária entre o próprio e o distante. Agora, viramos todos estrangeiros, dentro ou fora do país. Surge aquilo que Nestor Canclini denomina o estrangeiro nativo, o que está deslocado, por sua diferença, em seu próprio país. No lugar do exílio, o insílio, o exilado interno, desclassificado como cidadão, trabalhador sem contrato e sem licença, menor abandonado, pirata, traficante. Num mesmo lugar, há bairros onde se fala árabe, espanhol, ou coreano, há também bairros onde não se pode entrar sem uma espécie de “visto” dos grupos dominantes, as pessoas usam roupas diferentes das nossas, as praias são apropriadas por gente de fora. Surgem inclusive as línguas crioulas: portunhol, spanglish. Viramos todos nômades, imigrantes, forasteiros, foragidos, transculturais, transsexuais, seres híbridos, sem identidade ou com demasiadas identidades.

O vídeo e as artes plásticas talvez tenham sido as formas artísticas mais sensíveis a esses deslocamentos, se considerarmos que outras formas de cultura, como o cinema e a literatura, ainda continuam fortemente ancorados na temática nacional. A mostra visa colocar em confronto o que de mais consistente foi realizado no âmbito do vídeo nos últimos vinte anos dentro desse movimento de interpenetração do global com o local e na perspectiva de uma internacionalização radical. Ela propõe uma discussão inovadora sobre o que marca a saída do século XX e a entrada no século XXI em termos humanos, sociais e artísticos.

as poéticas do silêncio nos trabalhos de rachel rosalen


Priscila Arantes

“A crueldade é uma das formas da violência organizada. Ela não é forçosamente erótica, mas ela pode derivar em direção a outras formas da violência que a transgressão organiza. Como a crueldade, o erotismo é pensado. A crueldade e o erotismo se organizam no espírito que a resolução de ir além dos limites da interdição possui. Essa resolução não é geral, mas é sempre possível que ela se desloque de um campo para outro: trata-se de campos vizinhos fundados um e outro sobre a embriaguez de escapar do poder da interdição”( Bataille)

Cru deriva do verbo latino crudo que significa aquilo que não está cozido e é incipiente. Designa a carne escorchada e ensangüentada; a coisa mesma privada de seus ornamentos ou acompanhamentos ordinários, como a pele, reduzida ao sangrento e ao indigesto.

A pergunta da Documenta “O que é a vida Crua ?” com certeza nos remete ao tema da crueldade, a esta parte maldita da realidade: indigesta e ordinária. Bataille, na linha de Nietzsche, afirma que a verdadeira medida do Homem é dada nos atos mais cruéis. A precariedade do humano, sua parte maldita, consiste exatamente em uma subjetivação trágica que se dá a ver nas crueldades dos rituais e em seus gestos de destruição sem limites.

A produção cultural referente a essas lembranças assume muitas vezes uma configuração melancólica, indicando que as perdas não foram superadas. É dentro muitas vezes desta estética do trauma, em diálogo com Bataille, que podemos situar as produções da artista brasileira Rachel Rosalen. Suas obras transitam neste vácuo, neste espaço que dialoga com a morte, com a fragmentação de um homem pleno.

Suas produções são como signos alegóricos, no sentido de que nos fala Benjamin: narram a história de um homem perdido, decapitado, de um homem que se perde na barbárie do mundo capitalista, e que, perdido em sua ganância pelo poder, rompe com os laços mais profundos de amor e sociabilidade. Apesar do tema da crueldade ficar mais evidente nos últimos trabalhos da artista tal como em ENSAIO SOBRE A CRUELDADE OU O ENCONTRO DO SR. FATZER COM A RAINHA DE COPAS (live com música de Wilson Sukorski e Paula Pretta), #07 ensaios sobre a crueldade (instalação, trabalho inédito no Brasil a ser exposto no Paço das Artes em 2008) e BLACK RAIN # anti-war project (video instalação interativa exposta no Instituto Tomie Ohtake em 2005) que colocam em cena o horror e a tragicidade da guerra, a vida crua contamina outros trabalhos da artista: falam sobre a dissolução das formas constituídas, do corpo erotizado, da resolução de ir além dos limites.

Corpos em trânsito

Diz um mito grego, que no início dos tempos, a espécie humana era formada por três gêneros: o macho, a fêmea e o andrógino, um ser perfeito que partilhava das características dos dois primeiros. Dotados de uma terrível força e resistência e de uma forma inteira e globular com membros e órgãos duplicados, estes seres começaram a conspirar contra os deuses. A solução encontrada por Zeus foi o de dividí-los ao meio, retirando-lhes a sua antiga forma, o que levou cada metade, com saudades de sua totalidade perdida, não mais aspirasse do que fundir-se em um único ser. Tal como descrito no Banquete de Platão esta parece ser a origem mítica de Eros: este movimento de busca incessante que se associa à nostalgia de uma continuidade perdida; puro desejo de algo que falta e lhe escapa. “Esse ente, como qualquer outro que deseja, deseja o que não esta à mão nem consigo, o que não tem, o que não é ele próprio e o de que é carente” diz Sócrates no Banquete.
É dentro desta perspectiva, desta busca incessante que se associa à uma nostalgia da totalidade perdida deste Outro que lhe escapa, que se desenha a narrativa poética dos trabalhos de Rachel Rosalen. Suas obras, que se manifestam na forma de vídeos, vídeoinstalações e de outros processos criativos, buscam explorar, através dos recursos de linguagem oferecidos pelos dispositivos midiáticos, a temática do corpo. Seu percurso criativo, desde os primeiros trabalhos no início dos anos 2000 até os mais recentes desenvolvidos quando de sua estadia no Japão, tais como Diários Japoneses, Tokyo In, Otaku e Red Dreams são marcados pela poética do corpo erotizado em sua mais plena totalidade. Através de imagens, formas ondulantes e fluídas, superposições, cortes rápidos e secos mesclados por recursos sonoros e textuais, constrói-se uma linguagem híbrida que coloca em jogo a temática do corpo: o corpo da falta, o corpo que busca esta totalidade perdida, o corpo pulsante que transborda de desejo, que respira e que aspira, próximo ao limite da loucura, da paixão e do excesso, este Outro que lhe escapa.

É deste corpo que se fala em Fluorescências, em no_places e em (IM)MORTALITÁ. Subversivos e inquietantes estes trabalhos colocam em cena uma estética metropolitana que desmaterializa o território urbano em ruínas pós-modernas. Aqui é a cidade, marcada por seus altos e imensos edifícios e monumentos arquitetônicos, que serve como receptáculo para o corpo erotizado. Aqui a cidade contemporânea se apresenta como um território fluído e mutante que dá vida a uma geografia instável colocando em cena corpos imagéticos que copulam em out doors publicitários.

Este corpo erotizado também está em Roses, Tokyo In, Matsu, Raasar, Otaku e nos Diários Japoneses. Mas aqui o corpo da artista, da mulher-artista, entra em cena. Vestida algumas vezes com um tecido vermelho, mas muitas vezes despida de qualquer manto, seu corpo entra em cena com a sua própria nudez. Exilado do mundo e de si mesmo, este corpo “em estado de sítio”, este corpo estrangeiro, apresenta-se, nestes trabalhos, em sua mais íntima essência conduzindo-nos ao canto de uma aventura exótica que mistura a cultura oriental à ocidental. Entre a espada do sacrifício mortuário e a colher perfurada ao meio, que metaforiza aquilo que nos escapa, somos convidados a mergullhar em searas que revelam muitas vezes momentos de um profundo silêncio; o momento da plenitude erótica, o momento da morte, do gozo e da renovação.

Nos vídeos de Rachel Rosalen encontra-se a possibilidade de vivenciar as questões que dizem respeito às condições mais íntimas do sujeito na contemporaneidade. Para isto a artista cria estratégias poéticas que, muitas vezes, rompem com a linearidade narrativa nos oferecendo espaços múltiplos e fragmentários. Como uma espécie de recurso metodológico, Rosalen, muitas vezes, retoma dentro de um outro contexto uma mesma imagem colocando em cena o seu percurso criativo. Postula, assim, uma relação de continuidade de pensamento entre os seus diversos trabalhos ou melhor, da idéia do tempo como repetição. É desta forma que encontramos a imagem da colher perfurada ao meio, que retorna em Red Dreams, Tokyo In e em Otaku ( Desert Sutra); é desta forma que encontramos as imagens dos corpos que copulam em Fluorescências e em (IM)MORTALITÀ. Muitas vezes agressivos e inquietantes e acompanhados pelo ritmo frenético e enlouquecido do mundo contemporâneo e outras vezes de uma suavidade estonteante que evoca um profundo silêncio, constrói-se a poética criativa de Rachel Rosalen .

Ensaios anti – guerra

Mais recentemente este profundo silêncio revela-se, como uma espécie de ‘grito abafado’ nos ensaios anti-guerra da artista. Em Corpus Urbanos, Black Rain e #07 ENSAIOS SOBRE A CRUELDADE Rosalen nos convida a imergir em trabalhos da história como trauma - para seguir o conceito de Márcio Seligmann-Silva.

Em “black rain # an anti-war project” encontra-se a possibilidade de vivenciar as questões que dizem respeitos às atrocidades da guerra. Entre o corpo derretido e a cidade em chamas, entre o silêncio e o vermelho do kimono do atores, entre os corpos destroçados e os olhares aterrorizados das crianças, somos convidados a refletir sobre os conceitos que ainda nos restam de humanidade.

É sobre esta crueldade que nos fala, também, os #07 ENSAIOS de Rachel Rosalen. Aliando cenas de estúdio com cenas da realidade cotidiana, Rosalen nos mostra uma Alice que enlouquece, uma Alice que, desprovida de sentido e lógica, vítima e cúmplice ao mesmo tempo, dilacera-se nos cenários da barbárie humana.

http://www.canalcontemporaneo.art.br/documenta12magazines/archives/001069.php

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